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Mulheres no comando do transporte

Por cootraadmin9 de Março de 2018

As mulheres estão conquistando cada vez mais o seu espaço no mercado de trabalho. De acordo com o Ministério do Trabalho, com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017, as mulheres já ocupam 44% dos 37,6 milhões de postos de trabalhos formais do país. Esse índice era de 40,85% em 2007. Apenas no Distrito Federal elas estão em maior número do que os homens, onde predomina o funcionalismo público, como aponta a pesquisa.

Falar de mulheres ocupando cargos de liderança em gestão ou até mesmo dirigindo caminhões deixou de ser um tema encarado com resistência e passou a ser realidade dentro de algumas empresas do País.  Assim setores que antes eram dominados pelo sexo masculino, como o de transporte, hoje já oferecem oportunidade para o público feminino.

A preferência pela mão de obra feminina em certas funções já é realidade em algumas corporações seja pelo maior cuidado ou aumento de produtividade e menor índice de retrabalho. ‘’Conseguimos mostrar que competência não tem sexo, abrindo mercado de trabalho para as mulheres que colaboraram para o aumento da produtividade e da melhoria da capacitação no setor do TRC – Transporte Rodoviário de Carga’’, afirmou Urubatan Helou, diretor presidente da Braspress.

A Braspress promove um programa de treinamento específico para este público e hoje conta hoje com um quadro de 101 motoristas do sexo feminino. No total, a Braspress conta com 22,9% de seu quadro de colaboradores do sexo feminino, cerca de 1.331 mulheres.

Os controles internos mostraram que as motoristas mulheres têm maiores cuidados operacionais com os veículos colaborando para a manutenção dos caminhões e sabem ser educadas nos relacionamentos com os clientes e no trânsito são pacientes.

‘’Com isso, ocorreu a redução de batidas e dos custos de manutenção, incluindo funilaria. Além do que, temos encontrado em nossas motoristas mulheres um diálogo muito mais eficaz com os nossos destinatários, mesmo nos centros comerciais e industriais’’, finalizou Urubatan Helou.

Já a MAN Latin America anunciou recentemente que pretende atingir até 2025, percentual de 20% de seu quadro executivo formado por mulheres. A empresa possui mulheres em cargo de liderança até mesmo em áreas extremamente técnicas como a de motores e projetos especiais.

No caso do Ativa Logística em Itapevi, na Grande São Paulo, as mulheres ocupam mais da metade dos postos de trabalho nas operações, especialmente nas áreas de adequação (ink jet, rotulagem, montagem de kits, inclusão de manuais e bulas, etc) e separação de pedidos (cargas fracionadas, leitura de código de barras, cubagem eletrônica das embalagens, etc).

“Elas são praticamente 60% da nossa força de trabalho. São atividades que exigem mais atenção e delicadeza, características que as mulheres exibem bem mais do que os homens. Com elas praticamente não há retrabalho, o que nos possibilita ter uma equipe 30% mais produtiva”, afirma Elisa Pellini, gerente de logística na Ativa.

Atualmente, 22% do quadro de funcionários da Ativa, que tem 17 unidades em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina, é formado por mulheres, que ocupam espaço especialmente nas áreas operacionais e administrativas. Quinze delas, como a própria Elisa Pellini, ocupam cargos de gestão, atuando como gerentes, coordenadoras e supervisoras.

A caminhada até essa nova realidade não foi fácil. As mulheres que hoje conquistaram o seu espaço dentro de empresas e instituições ligadas ao transporte rodoviário de carga contam que enfrentaram preconceito e tiveram de provar diariamente sua capacidade. É o caso da Ducimara Salathiel, Diretora de RH no Setcesp e Socia-diretora da Extramila Transportes e Logística Diretora de RH no Setcesp e Socia-diretora da Extramila Transportes e Logística.

A paixão pelo setor de transporte começou na infância. Ela vem de uma família de caminhoneiros, pai, tios, avós. Aprendeu a dirigir caminhão com o irmão mais velho e viajou muito na boleia conhecendo de perto os problemas da estrada e o dia a dia desses profissionais.

Quando decidiu ingressar no setor há 20 anos se deparou com o preconceito. “Olhares, comentários e até mesmo descaso com as negociações eram frequentes. Acredito que hoje isso melhorou bastante mas não podemos dizer que acabou. No meu caso ser diretora de um sindicato patronal e também empresária é ainda mais complicado. Na Extramila, por exemplo sou a fundadora e as vezes é complicado impor alguma mudança para os colaboradores. Eles não aceitam muito bem a ideia de gestão feminina e a resistência é gigantesca. Já no Setcesp senti mais acolhida nas decisões. Tenho apoio do Presidente Tayguara e seus assessores jurídicos”, conta.

Para driblar essa resistência, a empresária explica que foi impondo os procedimentos, fazendo reuniões constantes e juntamente com o RH foi mostrando que tudo o que estava sendo aplicado eram procedimentos da Extramila e não da “Ducimara”.

A diretora da COMJOVEM (Comissão de Jovens Empresários) e diretora comercial da Rodomaxlog Armazenagem e Logistica, Barbara Pereira Calderani, também é apaixonada pelo setor de transporte. A empresária iniciou sua carreira profissional no transporte rodoviário de passageiros em 1999, onde ficou por 9 anos, e em 2008 migrou para o transporte rodoviário de cargas.

“Meu pai  foi o fundador da empresa , iniciou dirigindo seu primeiro caminhão e crescemos nesse ambiente de transportes , fretes , cargas , preço do diesel , pedágios. E aos poucos fui me interessando pelo setor e direcionei minha carreia profissional para essa área”, lembra.

O preconceito era um dos temores do pai de Bárbara, porém isso acabou ajudando ela a se preparar para os desafios que iria enfrentar. “O transporte é um setor extremamente fechado e machista. Com conceitos muito arraigados de que mulher é muito delicada e não consegue aguentar o tranco de trabalhar “com caminhões””, brinca.

Duas questões acompanharam Barbara no começo da carreira. A primeira o fato de ser mulher e a segunda ser “a filha do dono”. Por esses motivos muitas vezes foi desacredita e até menosprezada. “Nunca era o suficientemente boa ou profissional , sempre escutava as célebres frases: mas ela é mulher , ou mas ela é a filha do chefe”, explica.

A grande arma utilizada por Bárbara para ganhar esses colaboradores foi se profissionalizar e se especializar para dirigir caminhões e carretas e por algum tempo ela pessoalmente fazia os processos seletivos inclusive com teste prático de volante. “Isso foi essencial para ganhar o respeito e a admiração dos motoristas”.

Mas a executiva acredita que todo esse universo de preconceito a fez amadurecer mais cedo e consolidar suas escolhas. Ela se dedicou, se especializou nos estudos e mostrou suas capacidades e habilidades gerenciais. “Hoje o cenário é bastante diferente, a mulher já é muito bem aceita no mercado de transportes. Com muita luta e determinação as mulheres têm avançado cada vez mais no mercado de trabalho. No setor de transportes esta caminhada deu-se de forma um pouco mais lenta, devido a tradição do setor ser muito masculina e a cultura num geral acreditar que transporte é lugar de homem. Apesar de todos esses fatores , as mulheres foram se capacitando, se profissionalizando e cada vez mais ocupando cargos importantes no setor, hoje possuímos excelentes lideres mulheres nas principais entidades de classe, grandes empresas de transporte e logística e no mercado como um todo”.

Na opinião de Barbara essa tendência é permanente e cada vez mais as mulheres estarão a frente dos negócios por suas habilidades profissionais e emocionais. Segundo ela, a entrada das mulheres no setor de transportes rodoviários de cargas conseguiu trazer uma outra visão dos mesmos processos e sistemas, já que tem a característica nata de humanizar os ambientes, proporcionando conexões humanas focadas em melhorar o ambiente de trabalho e com isso a produtividade.

Alice Mara Presser, 58 anos de idade e 13 de profissão, é de São Bernardo do Campo/SP, e atua como motorista no transporte de combustível na empresa Transjordano. Ela faz viaja para Rondonópolis/MT. Ela conta que largou a profissão de cozinheira em creche municipal para seguir o sonho de ser motorista de caminhão. Na época tinha 45 anos e amigos diziam ser uma loucura. Mas, mesmo assim decidiu enfrentar todas as adversidades.

“Diziam que eu era velha e que ninguém iria me aceitar. Mas provei que estavam errados. Não vou dizer que foi fácil mas venci. Enfrentei preconceito principalmente no trânsito de homens que não cumprem as leis de trânsito e quando vêem que é mulher começa com aquelas frases ultrapassadas de tinha que ser mulher ,  seu lugar na cozinha. Hoje esse preconceito diminuiu bastante porém ainda existe”, lembra.

Hoje, conforme explica Mara – como gosta de ser chamada -, o principal desafio de uma mulher na estrada é a falta de infraestrutura. A maioria dos locais de parada não disponibilizam banheiros adequados. “O que mais se vê por ai são banheiros sujos sem um apoio para pendurar nossas coisas. É complicado”, reclama.

Para as aspirantes a profissão, a veterana dá alguns conselhos. “Primeiro se é um sonho não desista. Algumas portas vão se fechar, mas é normal persista. É importante se profissionalizar fazendo todos cursos disponíveis no mercado. Seja comunicativa, alegre mas nunca vulgar. Assédios vão existir mas não brigue e  leve na esportiva deixando claro que veio trabalhar. Vida de caminhoneira não é fácil e você terá de driblar a saudade da família e de vida social”, finaliza.

Outra motorista que também está na ativa é Jaidete Licia Macedo, de 44 anos, Salvador/BA. Ela trabalha na TransR e também atua no transporte de combustível e viaja o Brasil inteiro. Licia, como prefere ser chamada, se casou com 15 anos com um caminhoneiro  e desde então passou a viajar com ele e aos poucos foi se apaixonando pela profissão. Aprendeu a dirigir com ele. O casamento durou 13 anos  e após a separação decidiu tirar a sua habilitação.

“Amo a minha profissão. Tenho dois filhos e os dois estão na estrada. O menino atua na soja e a menina transporta produtos de limpeza. Quanto ao preconceito que todos me perguntam posso dizer que nunca sofri. Na minha opinião os homens têm respeito e muita admiração pela mulher no volante. Quando eu chego em um posto me sinto uma artista pelos olhares de admiração que percebo. A única coisa é que por ser mulher sinto que tenho que provar dia a dia que sou capaz”, afirma.

Para Licia a principal dificuldade também é a falta de infraestrutura na estrada para receber mulheres carreteiras. Conta que as vezes vai descarregar e só tem banheiro masculino ou aqueles que todos usam sem preservar a individualidade da mulher. Hoje, segundo ela, os postos já oferecem banheiro feminino o problema realmente está nas empresa que descarrega.  “Mas como já percebi que eu tenho que me adaptar ao ambiente e não o contrário eu dou o meu jeito, e nunca deixei que isso fosse um problema para mim”, brinca.

Há nove anos na profissão, Lis Macedo Pinho, 27 de idade, é filha de Licia e afirma que a vontade de dirigir um caminhão começou na infância. “Minha mãe foi a minha inspiração. Costumo dizer que nasci com o diesel na veia. Trabalho na empresa Quimica Amparo, no transporte de produtos de limpeza e amo a minha profissão”, declara.

Diferente de sua mãe, Lis afiram que no começo sentiu um pouco de preconceito. “Sentia aquela cobrança por ser mulher. Não podia errar, tinha que ser perfeita. Mas tirei de letra e na minha opinião esse tipo de cobrança esta acabando, principalmente pois o número de mulheres no volante cresceu muito”, opina.

A principal dificuldade também esbarra na falta de infraestrutura nos pontos de paradas. “Acho que as vezes esquecem que mulher também passa por ali. Mas, mesmo assim, para a mulher que pensa em iniciar a profissão eu digo insista e não desista somos mais que vencedoras. Mulheres no comando, mulheres no poder”, finaliza.

Fonte: ocarreteiro.com.br